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Evangelho de São Marcos

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Evangelho de São Marcos
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Este livro é uma expressão da bondade de Deus. Ele concedeu a Antônio Medeiros o dom especial de traduzir em desenhos, a mensagem evangélica. A Boa Notícia de Jesus chama ainda mais atenção quando ilustrada com figuras expressivas, como as que foram cuidadosamente elaboradas pelo autor deste livro. Elas estão em todas as páginas, ressaltando detalhes de cada episódio narrado no Evangelho de Marcos. Há muita dedicação e carinho por traz deste trabalho. Percebe-se, sobretudo, que Antônio Medeiros é uma pessoa contemplativa, que se debruça sobre a Palavra de Deus com reverência, medita-a, assimila-a, perde-se dentro dela para exprimi-la artisticamente.

Louvamos a Deus que, pelo Seu Espírito, inspira pessoas e comunidades para atualizar permanentemente a memória de Jesus de Nazaré. Esta memória tem uma especial importância para a nossa vida, pois alimenta a fé, fortalece o amor e suscita a esperança de um mundo de paz e justiça.

Assim como Antônio Medeiros faz hoje como líder na Paróquia do Santíssimo Sacramento de Itajaí/SC, o evangelista Marcos (também se chamava João Marcos) foi participante das comunidades cristãs primitivas. Conheceu a Jesus através do testemunho marcante de sua mãe, chamada Maria (cf. At 12,12). Em sua casa, em Jerusalém, reunia-se uma comunidade. Aí os cristãos e cristãs faziam orações, celebravam a ceia e recordavam as palavras e ações de Jesus. O próprio São Pedro frequentava esta casa. Mais tarde, Marcos tornou-se missionário junto com seu primo Barnabé e Paulo (cf. At 12,25; 13,5). Acompanhou também a Pedro que tinha por Marcos uma predileção muito especial: ele o chamava de filho (cf. 1Pd 5,13).

A Tradição da Igreja atribui a Marcos a redação do primeiro Evangelho. É o primeiro, não na lista do Novo Testamento como está na Bíblia, mas porque foi escrito antes dos outros Evangelhos. Foi ao redor do ano 70. Nesta época, as comunidades cristãs passavam por muitos conflitos, perseguições e problemas internos. A cidade de Jerusalém, onde morava a família de João Marcos, foi destruída pelo exército romano. Foi destruído também o Templo, centro político-religioso dos judeus. 

Este acontecimento foi precedido pela chamada “guerra judaica”, onde o grupo dos Zelotes liderou um movimento de forte oposição ao Império Romano. Certamente os cristãos se perguntavam se deviam ou não participar deste movimento. Alguns a favor, outros contra: criaram-se divisões internas. Além disso, entre as lideranças comunitárias, existiam conflitos de poder, competições, invejas, ciúmes... Conflituoso também era o relacionamento entre os cristãos de origem judaica com as pessoas estrangeiras. Havia ainda problemas sociais muito sérios: gente marginalizada, doente, oprimida... 

Dá para imaginar que estas situações causavam crises muito sérias que afetavam profundamente a vida das comunidades cristãs. Muitas pessoas até se perguntavam se valia a pena seguir a Jesus; algumas desistiram deste caminho e seguiram outras propostas menos exigentes, acomodando-se no ninho do poder e buscando seus próprios interesses...

Marcos e sua comunidade, inspirados e fortalecidos pelo Espírito Santo, sentem que devem fazer alguma coisa para ajudar a superar estas crises. Constatam, em suas reflexões, que há graves desvios da prática de Jesus, expressos no cotidiano da vida das comunidades cristãs. Decidem, então, resgatar, por escrito, a pessoa e a proposta de Jesus Cristo. E o fazem em forma de “Evangelho”: Boa Notícia que ilumina e transforma a vida de todas as pessoas que a lêem, a ouvem atentamente e a põem em prática.

O grande objetivo do Evangelho de Marcos é revelar quem é Jesus. Desde o início vai deixando claro que Ele é o Filho de Deus. Esta revelação está no começo, na apresentação do Evangelho (1,1) e confirmada por Deus Pai no Batismo de Jesus (1,11); está no meio, quando Pedro, em nome de todo o grupo dos discípulos, expressa que Jesus é o Cristo (8,29) e novamente confirmada por Deus Pai na Transfiguração (9,7); e está no fim, no momento da morte de Jesus, quando o centurião declara: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (15,39). 

Podemos dividir o Evangelho de Marcos em duas grandes partes. O texto divisor é o da declaração de fé de Pedro (8,27-30). A grande preocupação da primeira parte é narrar as ações de Jesus, com a intenção primordial de mostrar que o Filho de Deus veio ao mundo para libertar o ser humano de tudo o que o oprime. Grande parte do Ministério de Jesus acontece ao redor do Mar da Galiléia, no meio de pessoas necessitadas, com incursões rápidas para regiões vizinhas. Vemos que Jesus é normalmente acompanhado pelos discípulos e uma grande multidão. Os discípulos, porém, têm uma grande dificuldade de entender quem é, realmente, Jesus. Olham para ele e o acompanham, imaginando que fosse um grande líder que poderia tornar-se rei, à moda dos poderosos deste mundo. Assim, eles também poderiam satisfazer suas ambições, tornando-se grandes. Estão, na verdade, totalmente cegos. 

Na segunda parte, Jesus vai preocupar-se essencialmente com a formação de uma nova consciência nos discípulos. As multidões diminuem. Aqui, a intenção é mostrar que tipo de Messias é Jesus. Os discípulos precisam ser curados de sua cegueira. A caminho de Jerusalém, Jesus insiste que vai ser perseguido, preso, condenado e morto. Os discípulos não entendem e não admitem que tal coisa aconteça. Pelo contrário, discutem entre si quem vai ser o maior. Na verdade, somente vão entender quem é Jesus, após sua morte. 

O Evangelho de Marcos, portanto, nos revela o verdadeiro rosto de Jesus, o Filho de Deus, que morou entre nós e nos resgatou de nossa condição de pecadores para uma vida em plenitude. Ele veio para servir e não para ser servido. Este é um dos principais recados deste Evangelho: os seguidores e seguidoras de Jesus não devem entrar no jogo do poder. O Reino de Deus – o mundo de fraternidade, de justiça e de paz -, somente acontecerá se promovermos entre nós, a partir de nossa casa e de nossa comunidade, relações baseadas no serviço mútuo, no perdão recíproco, na tolerância respeitosa, na partilha segundo a necessidade de cada pessoa... Enfim, o Reino de Deus está no meio de nós, na medida em que assumimos atitudes cotidianas que expressem o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. 

Portanto, na leitura deste livro ilustrado sobre o Evangelho de Marcos, contemplemos a pessoa e a prática de Jesus. Ele é “o caminho que nos leva ao Pai, a Verdade que nos liberta e a Vida que nos enche de alegria”. 

Celso Loraschi 


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